Mensagem natal
” Mensagem no Dia de Natal ”
( A Raul Brandão- Dez.1940 )
I
Eu não penso nos heróis…
Eu não penso nos heróis, cujos nomes ficarão perpetuados
na História;
eu não penso nos heróis que ficarão como restos mutilados
das batalhas
e receberão medalhas
cobertos de glória;
eu não penso nos soldados que tiveram gestos ousados
e desprendidos,
e posaram anônimos para as futuras estátuas dos soldados
desconhecidos…
Eu penso é na juventude que se apaga como um meteoro
dentro da noite;
nos sábios do futuro que ficaram com os olhos vidrados e inertes,
e que não pensarão mais;
nos futuros artistas, que caíram de bruços com o coração na terra
e encontraram a paz;
penso neles, – os sábios, os cientistas, os escritores,
os artistas, os trabalhadores,
que nada mais criarão e nada mais farão
pela Civilização!
Eu penso é na dívida insolúvel e cada vez maior
de todas as guerras,
contra o progresso dos povos
contra a grandeza das terras!
II
Eu não ouço clarim…
Eu não ouço os clarins frenéticos, nem toques de vitória
pelos espaços;
eu não ouço os hinos marciais ou o rufar dos tambores
de roufenhos compassos;
eu não ouço os burras! os vivas! e as salvas das partidas
nem a algazarra das ruas trepidantes e em festa,
onde os soldados marchando – são como os rios que passam
numa calma triunfal
e as multidões assistindo – são como imensa floresta
gesticulando os seus galhos sob um vendaval!
Eu ouço, são os gemidos de todos os que caíram e ficaram abandonados
à própria sorte
e à espera da morte;
e o choro das crianças desprotegidas
que fugiram espavoridas,
sem rumo,
e dormirão no berço que as bombas abriram na terra
entre nuvens de fumo;
e os gritos de desespero das mães que mandaram os filhos à guerra
e que vêem morrer os que ficaram;
eu ouço, é essa orquestração wagnérica, descomunal,
dos instrumentos humanos que a um só tempo vibraram
na sinfonia da dor universal!
III
Eu não vejo as ruas embandeiradas…
Eu não vejo as ruas embandeiradas, nem as fardas vistosas,
e os instrumentos brilhantes
passando,
nem as janelas cheias, e as varandas cheias, e as calçadas cheias,
e as flores que mãos nervosas estão jogando;
e os olhos que estão brilhando, e os risos que estão cantando,
e os entusiasmos, e as alegrias, e os cívicos escarcéus,
e as bandeiras cheias de vento que se desfraldam nos céus . . .
Eu não vejo e não leio as manchetes enormes dos jornais
que são as letras de um hino que a multidão entoa
esquecida da paz…
Eu vejo é a terra devastada, os céus turvos, retintos,
e os homens descompostos que ficaram com as vísceras à mostra
e servirão de pasto aos abutres famintos;
e os hospitais arrasados, e as escolas destruídas,
e as pontes desconjuntadas, e as estradas interrompidas,
e os corpos inocentes das crianças espalhados no chão
criminosamente,
como brotos arrancados à passagem de um tufão
inconsciente!
IV
Em verdade…
Em verdade eu não vejo as partidas entusiastas e as chegadas vitoriosas
vejo é a derrota irremediável de todos os que não voltaram
e a surpresa maior dos que se julgaram vencedores,
e atônitos e assombrados
entre escombros e horrores
descobriram que também foram derrotados!
Em verdade
eu não penso na Glória, penso na Humanidade!
E não ouço a letra dos hinos que vibram notas marciais…
Neste dia de Natal oh! companheiros do mundo! oh! companheiros cristãos!
Eu ouço é aquela voz que atravessou os séculos num grito fraternal
de paz:
- “Amai-vos uns aos outros! Sêde irmãos!”
( Poema de JG de Araujo Jorge – do livro
” O Canto da Terra ” 1a edição – 1945 )